Dr. Alejandro Zoboli

Ortopedia e Traumatologia

Cirurgia do Pé e Tornozelo

Dr. Alejandro Zoboli

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Novidades e Tendências no Tratamento do Joanete: Uma Visão Baseada em Evidências

Introdução

O hallux valgo é uma das deformidades mais comuns do antepé, caracterizado pelo desvio lateral do hálux e pela proeminência medial da cabeça do primeiro metatarso, conhecida popularmente como “joanete”. Esta condição afeta significativamente a qualidade de vida dos pacientes, causando dor, dificuldade no uso de calçados e alterações na marcha. Nos últimos anos, avanços importantes têm transformado tanto o tratamento conservador quanto o cirúrgico desta deformidade.

Cirurgia Minimamente Invasiva: A Nova Fronteira

Uma das tendências mais marcantes no tratamento cirúrgico do hallux valgo é o crescimento exponencial das técnicas minimamente invasivas (MIS), particularmente as de terceira e quarta geração. Estas técnicas utilizam pequenas incisões puntiformes (menores que 5 mm) para realizar osteotomias e correções de partes moles, minimizando o trauma aos tecidos periarticulares.


Um estudo prospectivo recente com 729 pés demonstrou que a osteotomia transversa percutânea de quarta geração produziu melhora significativa tanto nos parâmetros radiográficos quanto clínicos. O ângulo hallux valgo (HVA) melhorou de 29,5° para 7,3°, e o ângulo intermetatarsal (IMA) de 12,9° para 4,6°, com taxa de recorrência de apenas 4,5% e taxa de complicações de 6,1%. Todos os domínios do Manchester-Oxford Foot Questionnaire apresentaram melhora significativa.
Uma revisão sistemática e meta-análise comparando diferentes técnicas cirúrgicas revelou que os procedimentos MIS de terceira geração demonstraram superioridade na correção da ângulação do hallux valgo (21,2° de melhora) em comparação com técnicas abertas tradicionais.
As técnicas minimamente invasivas também têm demonstrado resultados promissores em populações específicas. Em pacientes com 60 anos ou mais, a osteotomia triplanar minimamente invasiva sem parafusos (utilizando apenas fio de Kirschner temporário) mostrou melhora significativa em todos os parâmetros funcionais e radiográficos, com o VAS reduzindo de 5,19 para 0,47 e o AOFAS melhorando de 46,11 para 83,46 pontos em um ano.

Inovações em Fixação: Placas Intramedulares e Materiais Bioabsorvíveis

A fixação das osteotomias (cortes ósseos) também tem evoluído significativamente. O uso de placas intramedulares em abordagens minimamente invasivas tem ganhado destaque. Um estudo multicêntrico retrospectivo com 346 pés demonstrou correção de 88,7% no IMA, 75,2% no HVA e 70,8% na posição do sesamoide tibial, com resultados reproduzíveis e sem complicações significativas.
Paralelamente, materiais bioabsorvíveis, como parafusos de magnésio, têm sido investigados como alternativa aos implantes metálicos tradicionais. A principal vantagem é eliminar a necessidade de uma possível (porém improvável) segunda cirurgia para remoção do material de síntese, que pode ser necessária com parafusos de titânio devido à irritação local.

Correção do Joanete no Plano Frontal: Abordando a Pronação

Tradicionalmente, o tratamento cirúrgico do hallux valgo focava principalmente na correção no plano transverso. Entretanto, estudos recentes têm enfatizado a importância da correção da rotação  do primeiro metatarso no plano frontal. Uma série prospectiva de 105 pés tratados com técnica minimamente invasiva de terceira geração modificada demonstrou melhora significativa não apenas no HVA (redução média de 23,5°) e IMA (redução de 7,0°), mas também na avaliação da pronação do primeiro metatarso (melhora de 1,4 pontos).

Tratamento Conservador: Evidências e Limitações

Embora a cirurgia permaneça como o único tratamento capaz de corrigir definitivamente a deformidade, o manejo conservador tem seu papel, especialmente no controle sintomático e potencialmente na desaceleração da progressão em casos leves a moderados.
Uma revisão sistemática e meta-análise de tratamentos conservadores mostrou que a redução da dor é mais provável do que a melhora do ângulo hallux valgo. Intervenções que demonstraram redução significativa da dor incluem órteses plantares, talas noturnas, talas dinâmicas, terapia manual, exercícios combinados com bandagem e programas multifacetados de fisioterapia.
Um estudo randomizado controlado comparando cirurgia, órtese e observação em 209 pacientes demonstrou que a cirurgia (osteotomia chevron distal) foi mais efetiva que o tratamento conservador. Aos 12 meses, a intensidade da dor diminuiu mais no grupo cirúrgico do que no grupo controle (diferença média ajustada de -19 pontos), e 83% dos pacientes cirúrgicos relataram melhora, comparado a 46% no grupo órtese e 24% no grupo controle. As órteses proporcionaram alívio sintomático de curto prazo, com efeito mais pronunciado aos 6 meses.
Uma meta-análise em rede comparando diferentes tratamentos conservadores identificou que a combinação de exercícios com separador de dedos, talas noturnas e dry needling são as opções mais promissoras para reduzir o HVA e o IMA. Separadores de dedos (com ou sem exercícios), dry needling e manipulação demonstraram vantagens na melhora da percepção subjetiva dos pacientes.
Programas de fortalecimento muscular baseados em biomecânica têm ganhado atenção. Um protocolo direcionado ao fortalecimento de cinco músculos específicos (abdutor do hálux, adutor do hálux, flexor curto do hálux, tibial posterior e fibular longo) através de exercícios como “short-foot”, “toe-spread-out” e elevação do calcanhar tem sido proposto como adjuvante no tratamento, com foco na redução da dor e melhora da marcha, embora não corrija a deformidade estrutural.

Perspectivas Futuras no Tratamento do Joanete

A medicina esportiva e de reabilitação tem direcionado o manejo para além da correção estrutural passiva, enfatizando a restauração funcional ativa através de fortalecimento muscular, controle neuromuscular, retreinamento proprioceptivo e otimização biomecânica. Tecnologias digitais de reabilitação e estratégias de tratamento individualizadas e combinadas estão em desenvolvimento para melhorar os resultados a longo prazo.

Conclusão

O tratamento do hallux valgo está em constante evolução. As técnicas minimamente invasivas de terceira e quarta geração representam um avanço significativo, oferecendo correção efetiva com menor trauma tecidual, recuperação mais rápida e baixas taxas de complicação. A correção triplanar, incluindo o plano frontal, e as inovações em fixação ampliam as possibilidades terapêuticas. O tratamento conservador, embora não corrija a deformidade, mantém seu papel no alívio sintomático e pode ser considerado em pacientes selecionados, especialmente quando a cirurgia precisa ser postergada. A escolha do tratamento deve ser individualizada, considerando a gravidade da deformidade, sintomas, expectativas do paciente e evidências científicas disponíveis. Caso tenha hallux valgo e deseje maiores informações sobre tratamento, procure um Ortopedista Especialista em Pé e Tornozelo.

 

Fontes:

1.Fourth-Generation Percutaneous Transverse Osteotomies for Hallux Valgus. The Journal of Bone and Joint Surgery. American Volume. 2025. Lam P, Murphy EP, Chua MJ, et al.Recent

2.Correction Potential and Outcome of Various Surgical Procedures for Hallux Valgus Surgery: A Living Systematic Review and Meta-Analysis. Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery. 2024. Ettinger S, Spindler FT, Savli M, Baumbach SF.

4.Adjusted Indirect and Mixed Comparisons of Conservative Treatments for Hallux Valgus: A Systematic Review and Network Meta-Analysis. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2021. Ying J, Xu Y, István B, Ren F.

5.Effectiveness of Nonsurgical Interventions for Hallux Valgus: A Systematic Review and Meta-Analysis. Arthritis Care & Research. 2022. Hurn SE, Matthews BG, Munteanu SE, Menz HB.

7.Surgery vs Orthosis vs Watchful Waiting for Hallux Valgus: A Randomized Controlled Trial. The Journal of the American Medical Association. 2001. Torkki M, Malmivaara A, Seitsalo S, et al.

Dúvidas ou Sugestões

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