Dr. Alejandro Zoboli

Ortopedia e Traumatologia

Cirurgia do Pé e Tornozelo

Dr. Alejandro Zoboli

5 min para ler

Artrorrise no Pé Plano: O que é, qual a função e a recuperação

O que é a artrorrise subtalar?

A artrorrise subtalar é um procedimento cirúrgico minimamente invasivo utilizado para a correção do pé plano flexível (pé chato flexível), tanto em crianças quanto, em casos selecionados, em adultos. A técnica consiste na inserção de um implante no seio do tarso, espaço anatômico localizado entre o tálus e o calcâneo, com o objetivo de limitar a eversão excessiva da articulação subtalar e restaurar o alinhamento adequado entre essas duas estruturas ósseas.

Diferente das osteotomias e artrodeses, a artrorrise não remove nem funde superfícies articulares — por isso é descrita como um procedimento “joint-sparing” (poupador de articulação), o que contribui para sua crescente popularidade nas últimas décadas.

Como funciona o mecanismo da artrorrise?

O pé plano flexível é caracterizado por uma deformidade tridimensional: valgo do retropé, abdução do antepé e colapso do arco longitudinal medial. O implante de artrorrise atua como um “bloqueio mecânico” dentro do seio do tarso, impedindo a pronação excessiva da articulação subtalar e reposicionando o tálus sobre o calcâneo.

Existem três classificações biomecânicas principais de implantes, segundo Vogler:

Artrorrise Implante

  • Dispositivo autotravante (cunha): impede o contato do processo lateral do tálus com o assoalho do seio do tarso.
  • Dispositivo que altera o eixo subtalar (tipo STA-peg): eleva e redireciona o eixo da articulação subtalar.
  • Dispositivo bloqueador de impacto: impede a translação anterior do processo lateral do tálus durante a pronação.

Os implantes podem ser metálicos, de titânio, bioabsorvíveis (ácido poli-L-lático) ou de polietileno de ultra-alto peso molecular, com formatos cilíndricos, cônicos, esféricos ou tipo “taça de vinho”.

Quais são as indicações da artrorrise?

A principal indicação é o pé plano flexível sintomático em crianças e adolescentes, após falha do tratamento conservador (palmilhas, órteses, alongamento do tendão de Aquiles) mantido por pelo menos seis meses. O pé plano flexível corresponde a mais de 90% das consultas ortopédicas pediátricas relacionadas ao pé, embora a maioria dos casos seja assintomática e não exija cirurgia.

Em adultos, a artrorrise também vem sendo utilizada como procedimento adjuvante no tratamento da disfunção do tendão tibial posterior e da deformidade do pé plano adquirido, geralmente associada a reconstruções de partes moles mediais, como no procedimento de Kidner modificado para o navicular acessório doloroso. Segundo Schon, a artrorrise isolada é eficaz quando o valgo do calcanhar é inferior a 5 graus e a descoberta talonavicular está entre 20% e 30% — em deformidades mais graves, o procedimento costuma ser insuficiente isoladamente, sendo combinado a osteotomias de alongamento do calcâneo.

A figura a seguir resume um algoritmo cirúrgico que posiciona a artrorrise como procedimento central dentro de uma estratégia de reconstrução estagiada do pé plano flexível do adulto, considerando também o encurtamento do gastrocnêmio/Aquiles, a instabilidade mediotársica e o varo do antepé:

Quais são os resultados clínicos e radiográficos?

As revisões sistemáticas mais recentes mostram resultados favoráveis: em uma meta-análise, 94% dos pés (187 de 199) apresentaram melhora na classificação do resultado pós-operatório em comparação ao pré-operatório (p < 0,001). Estudos de longo prazo, com seguimento mínimo de nove anos, demonstraram alinhamento normal do pé em 71% dos pacientes e resultados funcionais bons a excelentes em 84,2% dos casos, avaliados pelo AOFAS e pelo FAOS.

Os parâmetros radiográficos mais utilizados para avaliar a correção incluem o ângulo talocalcâneo (Kite), o ângulo de Meary, o pitch calcâneo e o ângulo de declinação talar — todos mostrando melhora estatisticamente significativa após a cirurgia na maioria das séries publicadas.

Quais são as complicações possíveis?

A taxa geral de complicações da artrorrise varia entre 3,5% e 9,2% nas séries publicadas, sendo geralmente considerada menor do que a das osteotomias. As complicações mais relatadas incluem:

  • Dor persistente no seio do tarso, a complicação mais comum, podendo exigir remoção do implante em até um terço dos pacientes afetados.
  • Correção incompleta da deformidade, relacionada a implantes subdimensionados.
  • Supercorreção, causando dor por impacto, supinação do antepé e varo do retropé quando o implante é superdimensionado.
  • Reação inflamatória local, mais frequente com implantes bioabsorvíveis.
  • Migração, quebra ou soltura do implante, além de, raramente, necrose avascular do tálus e cistos intraósseos talares, descritos principalmente com implantes mais antigos de polietileno (tipo STA-peg).

A escolha adequada do tamanho e do tipo de implante é determinante para o sucesso cirúrgico, já que o resultado final só pode ser avaliado de forma completa no pós-operatório, com o paciente em carga total.

Artrorrise versus osteotomia: qual escolher?

Não há consenso único sobre o algoritmo ideal de tratamento cirúrgico do pé plano flexível pediátrico. Uma meta-análise recente comparando artrorrise e osteotomia de calcâneo encontrou melhorias clínicas e radiográficas significativas com ambas as técnicas, com taxa de complicações numericamente menor na artrorrise (9,2% vs. 10,5%), embora sem diferença estatística (p = 0,39). A artrorrise se destaca pela menor invasividade, recuperação mais rápida, possibilidade de cirurgia ambulatorial e carga precoce, sendo também facilmente reversível pela remoção do implante — vantagens que a tornam uma alternativa atrativa às osteotomias tradicionalmente preferidas para correções mais previsíveis a longo prazo.

Pontos-chave para a prática clínica

  • A artrorrise subtalar é indicada para pé plano flexível sintomático refratário ao tratamento conservador.
  • O implante atua limitando a eversão subtalar excessiva, sem fusão articular.
  • Resultados funcionais e radiográficos são favoráveis na maioria das séries, inclusive em seguimento de longo prazo.
  • Dor no seio do tarso e correção inadequada (sub ou supercorreção) são as complicações mais relevantes a monitorar.
  • Deformidades graves podem exigir associação com osteotomias de alongamento do calcâneo.

FAQ:

Para quem a artrorrise é indicada?

É indicada sobretudo em crianças e adolescentes com pé plano flexível (pé chato) sintomático, que apresentam dor, fadiga ao caminhar ou correr, e que não responderam ao tratamento conservador (palmilhas, órteses e fisioterapia) por pelo menos seis meses.

A artrorrise corrige o pé plano definitivamente?

A artrorrise melhora significativamente os parâmetros radiográficos do arco plantar, como o ângulo de Meary e o ângulo de inclinação calcânea, além de reduzir a dor e melhorar a função em boa parte dos pacientes operados. No entanto, ainda faltam estudos de longo prazo que confirmem a manutenção desses resultados até a vida adulta, o que torna a seleção cuidadosa do paciente essencial.

Quais são os riscos e complicações da artrorrise?

As complicações mais comuns incluem dor residual no seio do tarso, correção incompleta da deformidade, reação inflamatória ao implante (mais comum com dispositivos bioabsorvíveis) e, raramente, necessidade de remoção ou revisão do implante. A taxa geral de complicações relatada na literatura gira em torno de 9%, variando conforme o tipo de implante utilizado.

A artrorrise pode ser combinada com outros procedimentos?

Sim. Em muitos casos a artrorrise é associada a outros procedimentos, como o alongamento percutâneo do tendão de Aquiles ou o reparo do ligamento spring, especialmente quando há deformidade mais acentuada ou contratura associada. A combinação pode proporcionar melhor correção radiográfica em alguns casos, embora o benefício clínico adicional ainda esteja sob avaliação.

O implante da artrorrise precisa ser retirado depois?

Em muitos protocolos pediátricos, sim: o implante costuma ser removido após a maturidade esquelética ou após um período de consolidação da correção, uma vez que seu papel é temporário, favorecendo o remodelamento ósseo durante o crescimento. A remoção, quando indicada, não costuma comprometer o resultado obtido.

Fonte:

Foot & Ankle International. 2005. Needleman RL.Review

Dúvidas ou Sugestões

10 Mitos e Dicas Fasceite Plantar

10 Mitos e Dicas sobre Fasceíte Plantar

A fasceíte plantar é uma das causas mais comuns de dor no calcanhar e no arco do pé, afetando milhões de pessoas no mundo inteiro. Apesar de ser uma condição frequente, ainda existe muita desinformação